Hoje navegando no YouTube vi um vídeo interessante, um internauta colocou a seguinte pergunta:
(
http://www.youtube.com/watch?v=EmHuW_jJERo)
"Por que estudar filosofia ?"
Ao ver o vídeo pensei um pouco sobre isso, como eu fiz uma matéria de filosofia da educação a pouco tempo me ocorreu essa resposta:
Para mim, o mais importante em estudar filosofia, foi
perceber que: muitas coisas que achamos
naturais em nossa vída contemporânea, idéias que "vieram prontas" de algum lugar e formam nossa visão de mundo, influenciando na forma como vivemos, na verdade
não são tão naturais assim.
O modo como vivemos não é o
único modo de se viver, as idéias que temos do mundo são profundamente influenciadas pela era em que vivemos e
não são a única verdade.
Existem
caminhos filosóficos que levaram à visão de mundo moderna, eles não são os únicos caminhos possíveis, são passíveis de contestação, e muitas vezes esses caminhos são inclusive apropriados, difundidos ou até distorcidos por um ou mais segmentos, propositalmente ou não.
A partir dessa idéia-base, me ocorrem alguns exemplos e desenrolares que eu gostaria de colocar:
A Inutilidade da Filosofia:
Vou usar como exemplo a própria idéia de
inutilidade da filosofia. Permita-me desenvolver:
Antigamente, o mundo era baseado em caça, pesca, cultura agrária e dominação através da guerra. Por mais que os povos avançassem em suas técnicas, descobrindo novas e melhores formas de fazer as coisas: antes da era industrial, ainda era necessário emprego de grande força humana e animal. Na verdade, grande parcela da população sentia que era inútil estudar, essa parcela vivia um cotidiano de trabalho no campo, na caça, na pesca ou de luta, uma vida voltada ao trabalho e vigor físico.
Após a era industrial, o homem começou cada vez mais a utilizar a energia disponível na natureza para produzir: combustível, eletricidade. Máquinas, tratores, indústrias, linhas de montagem com maquinário, passaram a substituir gradativamente a força humana e animal.
Como resultado, o estudo é cada dia mais valorizado. O estudo, que sempre foi um
diferenciador entre as classes mas
era pouco acessível e pouco possibilitava a mobilidade entre classes, hoje é estimulado, muito mais acessível do que antes e cria meios de vida.
Quem vive melhor, quem é mais valorizado na sociedade ? Um
arquiteto ou um
pedreiro ? Um
engenheiro ou um
carregador de caixas ?
De modo geral, o
trabalho intelectual é valorizado em nossa sociedade, o estudo
é valorizado. Existem estatísticas que associam claramente o
nível de estudo formal com a
renda média das pessoas.
Aí me ocorre a seguinte pergunta:
Por que algumas áreas de estudo são
muito valorizadas e outras
pouco ?
Qual é o
critério principal das pessoas em geral para "medir" a utilidade de uma área de estudo, ou de uma atividade ?
Eu arrisco uma resposta: a maioria das pessoas associa a
utilidade de uma
área de estudo com o
retorno financeiro que aquilo pode dar.
Note que todas as faculdades que são consideradas
úteis pelas pessoas, são aquelas que podem dar
retorno financeiro, que representam um trabalho rentável. É curioso até mesmo notar como isso muda rapidamente, se uma área do conhecimento outrora dava dinheiro todos corriam para ela, a partir do momento em que deixa de dar dinheiro, todos se perguntam: para que estudar isso ?
Não nego de forma alguma a importância de ganhar dinheiro, quem está em situação difícil deve mesmo estudar áreas com retorno financeiro para se estabilizar, pois sem dinheiro nossas necessidades primárias ficam descobertas.
Mas não posso também deixar de me perguntar: por que algumas áreas do conhecimento
dão dinheiro e outras
não ?
A
engenharia, por exemplo, dá dinheiro. A
filosofia nem tanto.
A
engenharia contrói pontes, indústrias, estradas.
A
filosofia molda idéias, foi até de certo modo uma das bases para a própria engenharia e ciência, mas será o valor da filosofia apenas histórico ?
Será que a
engenharia é muito mais útil e importante para a sobrevivência do que a
filosofia ? Será que as profissões dão dinheiro de acordo com sua utilidade prática, sua intervenção material no dia-à-dia ?
Vamos ver exemplos de
outras profissões que também dão dinheiro e não são tão utilitárias ou relacionadas a matéria assim.
Um
designer de móveis, por exemplo, ganha dinheiro criando conceitos de móveis bonitos, modernos, confortáveis. Ele ganha dinheiro com
design,
beleza. Existe também o designer de
embalagens, embalagens bonitas vendem melhor, mas será que a beleza das embalagens é tão importante para a sociedade assim ?
Será então que criar móveis bonitos é mais importante que a filosofia, já que ganha mais dinheiro ?
Quem trabalha com
moda, trabalha com a
beleza das roupas, as tendências, e também ganha dinheiro, será que isso é mais importante que filosofia ?
Se as embalagens dos produtos, por exemplo, fossem todas iguais: padronizadas, cinzas e apenas com um texto preto descrevendo o conteúdo, a sociedade sofreria mais prejuízo do que se não tivéssemos a filosofia ?
Um
engenheiro que trabalha em uma
fábrica de cigarros ganha mais que um
filósofo profissional, será que fabricar cigarros é mais importante que filosofar ? Quanto prejuízo para a sociedade causaria uma
fabrica de cigarros a menos ?
Vamos a um exemplo extremo:
Um
traficante de drogas pode ganhar muito dinheiro. Será que
tráfico de drogas é mais útil à sociedade que a filosofia ? É evidente que não!
Todo mundo entende que o tráfico de drogas é
inútil e
prejudicial para a
sociedade.
Mas ninguém questiona a utilidade de traficar drogas
para o traficante. O traficante trafica
para ganhar dinheiro, isso é claro para todos.
Outros exemplos:
Quão
útil para a sociedade é uma grife famosa ? Quão mais
útil é uma bolsa de marca do que uma
bolsa qualquer de boa qualidade ?
Um designer de bolsas de grife ganha muito bem, mas nem por isso o que ele faz é tão útil assim.
Então fica claro que:
As atividades que dão mais dinheiro,
não são necessariamente as mais
úteis para a sociedade.
Na verdade, as atividades que
dão mais dinheiro são as que mais interessam ao
mercado. Ou a um grupo de pessoas que
tem dinheiro e está disposto a
pagar. (os motivos de quem paga podem variar muito)
O
mercado não é uma força esóterica, é a soma dos interesses de diversos segmentos da sociedade, o mercado é formado por diversos grupos de pessoas e suas mentalidades e vontades.
Alguns desses grupos têm mais influência sobre as idéias do que outros. O
dinheiro não é
única forma do "mercado" (ou segmentos diversos do mercado) defenderem seus interesses. O próprio sistema de valores em que vivemos é muito influenciado pelos meios de comunicação, por exemplo.
É claro que quando falamos em
mercado, falamos em segmentos sociais com interesses diversos, algumas vezes convergentes noutras paralelos, em outras ainda divergentes. Essas forças se sobrepõem, criando um "mar de diversas correntes", que influenciam as idéias para um lado ou para o outro.
Prestando atenção se percebe: aos segmentos
mais influentes do mercado (e portanto aos meios de comunicação em massa), pouco interessa a
mudança nos paradigmas sociais. Todas as áreas do conhecimento que ameaçam mudanças sociais são desvalorizadas monetariamente e até mesmo desvalorizadas de outras formas.
Quem está por cima quer continuar por cima, portanto não quer mudanças ou pior ainda: quer mudanças que estabilizem ainda mais e
reforcem as posições.
A filosofia não tem como intenção primária a mudança social, mas como uma área de conhecimento que tende a questionar a
essência de todas as coisas, acaba questionando também o status quo. Questiona inclusive os
argumentos dos segmentos que dominam os meios de comunicação e influenciam muito no
estabelecimento desse status quo.
É por isso que a filosofia
não interessa ao mercado. As forças mais vigorosas do mercado são sempre
contra a mudança. A filosofia, que estimula o livre pensamento, ameaça sempre o imutável.
Nos deixar levar por esse tipo de idéia:
"apenas ganhar dinheiro é importante, quero aprender algo útil para trabalhar e ganhar um bom salário e nada mais interessa.", favorece o interesse "daqueles" que as difundem. Ao aceitar esse tipo de idéia, nos tornamos
alienados da realidade histórica, aquela que extrapola o
sistema de idéias em que estamos inseridos. Nos tornamos incapazes de
mudar qualquer coisa.
Acreditar que
filosofia é inútil faz parte de um sistema, proposital ou incidental, que
nos faz acreditar nisso. Já que a filosofia questiona tudo, e existe
muita coisa errada em nossa sociedade.
Não é prudente nem sábio se deixar levar pelas correntes de pensamento como uma folha ao vento, sem nunca questionar para onde essas correntes levam, de onde vieram, a quem beneficiam e a quem prejudicam. Isso vale até mesmo para a própria questão da
inutilidade da filosofia e aborda muitas outras.
Basicamente é isso que penso sobre a filosofia e muitas outras áreas do conhecimento que são desvalorizadas.
Acredito que estudar filosofia nos torna seres epistemológicos e históricos, ao passo que nos torna capazes de questionar a realidade em que vivemos, inclusive em um sentido social. Acho até mesmo ingenuidade daqueles que pensam que a filosofia em nada afeta suas vidas, já que as correntes de pensamento "dominantes" derivam, algumas vezes até distorcem e ideologizam pensamentos filosóficos. Entender filosofia nos permite um "diálogo interno" com as correntes de pensamento dominantes ao invés de sermos "engolidos" por elas. Torna a "relação" que temos com essas correntes mais "justa", mais equilibrada.